Há algum tempo venho tentando entender em que ponto exatamente me perdi de mim mesmo.
Talvez essa seja uma pergunta complexa demais, ou talvez a resposta sempre tenha estado diante dos meus olhos e eu apenas não tenha tido coragem suficiente para encará-la por completo. O fato é que, nos últimos anos, a vida pareceu assumir esse papel quase ritualístico de desconstrução. Como se cada relação rompida, cada expectativa frustrada, cada reencontro com fantasmas que eu jurava já ter enterrado, tivesse sido responsável por arrancar de mim algumas camadas fundamentais daquilo que um dia compreendi como identidade.
É estranho perceber como sobreviver também pode ser uma experiência de ruína.
Durante muito tempo, acreditei que amar alguém profundamente poderia servir como uma espécie de resposta. Como se o amor, ou ao menos a tentativa dele, pudesse preencher certos espaços internos que há muito tempo ecoavam vazios. E talvez por isso eu tenha insistido tanto, mesmo quando certas histórias já haviam claramente cumprido o seu ciclo. Talvez por isso eu tenha revisitado pessoas, memórias e dores que em outros tempos prometi nunca mais tocar. Existe algo de profundamente humano, ainda que perigosamente melancólico, nessa tendência de retornar ao que já nos feriu, quase como se revisitar a dor pudesse, de algum modo, reescrevê-la.
Mas a verdade é que algumas feridas não reescrevem. Algumas apenas cicatrizam de maneira torta.
Tenho tentando compreender os destroços deixados por alguns finais, pelas frustrações subsequentes e, sobretudo, pela maneira como tudo isso pareceu corroer partes muito específicas da minha autoestima. Existe uma violência silenciosa em deixar de se reconhecer. Em perceber que aquela pessoa que antes sabia existir sozinha, que conseguia se levar para passear, que encontrava valor em sua própria companhia, agora enfrenta dificuldades até mesmo para sustentar o próprio reflexo.
Solidão sempre foi uma companhia ambígua para mim.
Por um lado, ela oferece silêncio suficiente para reflexão. Por outro, silêncio demais pode facilmente se transformar em abismo.
E talvez esse seja um dos meus conflitos mais profundos no presente: compreender que parte dessa solidão é circunstância, mas outra parte também foi escolha. Uma escolha construída por traumas, medos, decepções e pela exaustão emocional que certos processos inevitavelmente deixam. Estar só, às vezes, parece proteção. Mas permanecer só por tempo demais pode fazer com que a proteção lentamente se transforme em prisão.
Tenho sentido isso.
Tenho sentido o peso dos dias em que levantar da própria mente parece uma tarefa hercúlea. Dias em que a depressão colore tudo com tons mais opacos. Dias em que a ausência de conexões reais amplia antigos vazios e faz parecer que talvez eu tenha desaprendido alguma habilidade essencial para viver.
Mas, apesar disso, existe algo dentro de mim que ainda resiste.
Talvez seja a mesma força que me fez sobreviver a versões anteriores de mim mesmo. Talvez seja aquele velho instinto criativo, reflexivo e obstinado que sempre me empurrou para frente, mesmo quando eu estava convencido de que não conseguiria sair do lugar. Ou talvez seja apenas a compreensão, ainda que frágil, de que este momento não necessariamente define toda a minha existência.
Tenho tentado me lembrar disso.
Tenho tentado entender que reconstruir amor próprio não é um evento grandioso, cinematográfico ou repentino. Talvez seja, na realidade, um processo brutalmente cotidiano. Uma sucessão de pequenas escolhas. Levantar. Respirar. Sair, mesmo sem tanta vontade. Reaprender a gostar da própria presença. Redescobrir valor não como reflexo do desejo alheio, mas como algo intrínseco, interno, inegociável.
No momento, confesso: ainda estou longe de dominar completamente essa arte.
Ainda me sinto perdido muitas vezes.
Ainda existem dias em que a versão mais forte de mim parece uma memória distante.
Mas talvez crescimento também seja isso. Não necessariamente retornar intacto ao que se era, mas construir, a partir dos escombros, alguém novo. Alguém mais consciente de suas fragilidades, de suas carências, de suas profundezas, mas também de sua capacidade de continuar.
Porque talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar alguém que preencha vazios.
Talvez seja aprender, com toda a dificuldade e beleza que isso implica, a existir de forma inteira mesmo diante deles.
Hoje, mais do que buscar respostas definitivas, estou tentando apenas continuar.
Continuar escrevendo.
Continuar sentindo.
Continuar buscando.
Continuar existindo.
Mesmo quando existir, por si só, já parece um ato revolucionário.
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